Espaço para irradiar

Não é como nada
a que te comparam
– lua de verão

(Bashô)

 
Blossoming Cherry on a Moonlit Night (ca. 1932) by Ohara Koson. Original from the Los Angeles County Museum of Art. Digitally enhanced by rawpixel.

Gravação

Senha: s1g5X@iP


Poemas

Se o mar entrar

Se o mar entrar em casa
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó

O mar já está aberto
e voltado de borco*
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo.

(Antonio Ramos Rosa)

A voz do pulso

Se eu penso que é um crime
a luz clara nasce
deste não que suspendo

Não saber até onde
e claramente abrir
o começo tão certo
deste pulso que afirmo

*

A noite me confunde
e nela retempero
a flor que não distingo
de um destino sem olhos

*

Mas o dia de sol
a prumo
fere meus dedos
na página deserta

*

A música começa
no deserto do não
(no túmulo do quarto
as sílabas são mudas)

O delírio é só um
e a esperança é arriscar-se
nesta pedra de som

*

Eu me abro eu me levanto
à janela à mesa ao dia
Sou esse outro que anda
com um destino aos ventos
entre claras lâmpadas

O homem que aconteço
casualmente certo
e se afirma no dia
na igualdade pura

(Ó deserto tão simples)

*

Música alheia minha
Afirmação dos outros
Ao lado deles vou
Tenho um espelho no quarto

O dia é alto quando
na mesa nada espera
que não seja poesia

*

É verdade o que digo
Com a justa rapidez
Breve dureza
a luz
que abre espaço tão certo
de cada um
a cada um

*

É uma rosa que surge
na mesa a contemplar
É uma forma onde
um mar pequeno sonha
onde recomeçar
a maravilha simples

*

A voz que subsiste
mas só nasce inesperada
A tua mão é larga
Limpa a tua vida

afirma-a sem nada

(Antonio Ramos Rosa)

O tesouro da forma

À felicidade viva

Qual é a cor que dou à pedra imóvel
ao animal, à forma que suspeito
sob a água sem lastro? Uma figura
como um círculo pura e grande espaço,
um esforço alegre, ó inviolável página!

Não há terror nem surpresa, reconheço
a ausência, um sorriso de começo,
uma vontade de ajudar talvez a flor,
ou antes a raiz, o gérmen, o romper
das folhas e corolas, largas faces,
que são mãos e punhos desatados,
ao rosto de ar, à felicidade viva!

(Antonio Ramos Rosa)

Uma proposta

Que formas surgiram do encontro entre suas mãos, a massa, o tempo?

Uma proposta de desdobramento ao exercício é deixar-se interagir com aquilo que encontrou, algo que pode ser feito a partir de uma relação de curiosidade com o símbolo. Para além das intenções movidas quando começou a modelar, o que se revela na forma aparente final? Se visse aquela criação pela primeira vez, o que acharia dela? O que ela te diria?

Trata-se de uma relação sem posse, não como criadora e obra, mas como gesto e manifestação. Para além do impulso da vontade e da intenção, o que veio ao mundo e o que isso traz de novas informações que não nos são imediatamente acessíveis? Como o pássaro vermelho que ascende e transforma e nos traz de volta mensagens de lugares longínquos, o que te diz o objeto que te olha de volta?

E isso pode, de repente, se desdobrar numa fotografia, numa composição, num arremate que gere um formato mais finalizado e, quiçá, mais poético… Um pequeno texto-poema (quem sabe um haikai?) posto ao lado da forma, uma brincadeira de imagem e texto, cria uma nova obra. (Deixo abaixo a construção da minha obrinha como exemplo.) Mas o mesmo se dá na composição fotográfica de obra e seu entorno, seu cenário. Obra e corpo, quem sabe? Ou aquilo que, alegre, brotar como inspiração no momento. Confie e brinque!