O tecido de cada uma:
sobre finais e arremates

Bolsa de memórias

Aquele primeiro grito abre a porta de terra.
Nos juntamos à estrada ancestral. 
Com nossa trouxa de memórias
Pendurada às nossas costas
Nós nos aventuramos para dentro do círculo
de destruição,
que é o círculo
da criação
e então criamos mais–

Joy Harjo


Poema do ylang

Se o mar entrar

Esta página é talvez o deserto ou talvez uma praia. Percorre-a, sílaba por sílaba, até que. Uma sílaba, uma parede coberta de folhagem. Folhagem ou água ou vento. Uma boca devorada pela língua ou pelo sol. Uma praia na pele entre o sal e o sol. Uma frase, uma só frase despojada, nua, selvagem. As gaivotas sublinham uma boca enublada e límpida. A mão levanta-se até tocar uma raiz, uma veia, uma palavra. O texto é um clamor de silêncios e sombras e luzes. O corpo é uma sombra luminosa, uma pedra fresquíssima. Toca-lhe. É um animal entre o vento e o sol. É uma sombra ondulante e leve. Que respira entre a areia e a água.

(Antonio Ramos Rosa)