Encontro 3: confiar
alguns poemas…
Conta-me musa sobre esse antigo passeante
que se encontrou à deriva no espaço infinito
com todos os planetas voando em órbitas a seu redor
como apáticos deuses
todo tipo de luz e não-luz ele testemunhou
até que o metal de seus olhos enferrujou
e agora não há mais retorno não há nem fronteira nem lei
nem horizonte ou parede de cais ou ruínas de quebra-mar
para afastar este sem forma de seu sem vista
e mesmo assim a cinza voz do mar avançando sobre seu crânio
mesmo por entre dentes cerrados ela continua a sussurrar
– Alice Oswald, Nobody
Anunciação
Eu vi minha alma virar corpo se abrindo
o óleo de linhaça se abrindo sobre a página
escorrendo derramando
ninguém para pegá-lo minha vida se abrindo
ninguém para a conter minha
pelve se afinando com deus
– Jean Valentine
Tumba do poeta
O Livro
o vaso
o verde obscuramente talo
o disco
leito da bela dormente a música
as coisas afogadas em seus nomes
dizê-las com os olhos
em um para lá que não sei onde
pregá-las
lâmpada lápis retrato
isto que vejo
pregá-lo
como um templo vivo
plantá-lo
como uma árvore
como um deus
coroá-lo
com um nome
imortal
irrisória coroa de espinhos
Linguagem!
O Talo e sua flor iminente
sol-sexo-sol
a flor sem sombra
a palavra se abre
num para lá que não sei onde
extensão imaculada
transparência que sustenta as coisas
caídas
pela vista
erguidas
em um reflexo
suspendidas
Faz de mundos
instantes
aglomerados ardentes
selvas andantes de astros
sílabas errantes
maré
todos os tempos do tempo
SER
uma fração de segundo
lâmpada lápis retrato
um aqui que não sei onde
Um nome
começa
captura, planta e o diz
como um bosque pensante
encarná-lo
Uma linhagem
começa
em um nome
um adão
como um templo vivo
nome sem sombra
pregado
como um deus
neste aqui sem onde
Linguagem!
Acabo em seu começo
nisto que digo
acabo
SER
sombra de um nome instantâneo
Nunca saberei meu desenlace